A aparência da educação – Colunas DomTotal

Colunas Marcel Farah

27/11/2015 | domtotal.com

A aparência da educação


Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, as pessoas se educam entre si mediatizadas pelo mundo. Essa é, com adaptações, a base da educação popular para Paulo Freire, praticamente todas as demais caracterizações de uma educação que liberta, que emancipa, que transforma, que forma sujeitos de direitos, que mobiliza, giram em torno desta afirmação.

Se ninguém ensina ninguém quebramos a coluna vertebral da educação conteudista que baseia-se na ideia de que algumas pessoas detém determinado conteúdo, conhecimentos, e outras pessoas não. Assim se transfere conhecimento pelo ato educacional. A isso

Paulo Freire chamou de educação bancária, como se cada aluno fosse um banco em que se depositasse conhecimento. Linear e insuficiente para explicar o processo de ensino e aprendizagem.

Se ninguém aprende sozinho a relação entre as pessoas tanto presencial como a distância, inclusive através dos saberes sistematizados em livros, artigos etc, é essencial para a educação. O conhecimento é produzido nas relações sociais.

Outro saber freireano trata do diálogo como fundamento da produção de conhecimento, e da caracterização do diálogo como um exercício entre iguais, que se consideram iguais. Neste sentido a humildade é requisito do diálogo e o autoritarismo pode aniquilá-lo.

Pois bem, o exercício educacional é um exercício fundamentalmente de amizade, em que as pessoas se envolvem umas com as outras de forma verdadeira e que as mobiliza a produzir conhecimentos juntas.

A simples formulação freireana ataca na raiz a lógica do patenteamento. Patente é a apropriação privada de conhecimentos que só se produzem por meios de relações sociais incontáveis que se realizam durante a história. Não existe invenção original, pois tudo é baseado na produção conjunta e coletiva de conhecimentos que a história nos permite. Portanto, há um enorme receio de setores conservadores de que a radicalização desta compreensão de educação ameasse algum dia a dinâmica de patenteamento, ou de mercantilização do conhecimento, um enorme mercado na “sociedade do conhecimento”.

Por anos lutou-se pela construção de um sistema educacional no Brasil que fosse valorizado pelo Estado como estratégico para o futuro soberano de nosso país e que, para tanto, fosse baseado nos princípios de uma educação emancipatória.

Para que isso ocorra é preciso que a educação não se transforme em um mercado, que o ensino não seja certificado por diplomas, em um espaço frio, mecânico, sem diálogo verdadeiro, marcado pela concorrência entre estudantes, pelo mérito exclusivamente individual, por indicadores que substituem o centro da ação, a realidade. A educação tem sim que ser criadora de habilidades, por sua capacidade de agregar as coletividades em torno da produção de conhecimentos e produção tecnológica livre, em torno da emancipação.

Portanto, a maior ameaça à educação hoje é a mercantilização. Correção, não é de hoje, esta ameaça é de sempre.

A maior empresa educacional do mundo, atua no mercado brasileiro, a Kroton (Anhanguera).

A maior parte da educação superior brasileira é privada.

O principal debate do PNE no Congresso foi a disputa sobre o orçamento público (os 10% do PIB). A questão era se o dinheiro deveria ir para a educação pública, ou simplesmente para a educação – o que permitiu destinar recursos públicos também para o ensino privado.

As empresas educacionais tem uma bancada no Congresso, os chamados “tubarões do ensino”, e um fortíssimo lobby sobre o Executivo, além de um arcabouço enorme de soluções prontas para quase todos os “problemas” do sistema educacional brasileiro, sob o ponto de vista empresarial.

As empresas de educação estão sedentas por abocanhar uma parcela considerável da edição e publicação de livros e materiais didáticos para todas escolas de todo o Brasil a partir da padronização que a Base Nacional Comum Curricular , em consulta na internet, pode permitir.

O período é de extrema dificuldade para a educação popular devido ao clima de confusão em que nos encontramos. É preciso entender a política econômica e seus efeitos. É preciso entender a questão do financiamento do Estado, já que precisamos dialogar com a realidade do ajuste fiscal. É preciso estudar os mecanismos de construção dos discursos hegemônicos (as narrativas) sobre as causas e os efeitos da crise. E por isso é preciso destrinchar a questão dos meios de comunicação oligopolizados. É preciso, por isso produzir comunicação.

É preciso popularizar as tensões de fundo sobre a educação, para que se entenda nitidamente o que está em jogo: a mercantilização da educação.

Além disso é preciso fazê-lo de forma dialógica, partindo da realidade, valorizando os saberes populares, sistematizando as práticas e construindo uma mística da emancipação.

Marcel Farah Educador Popular

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