para roda de trocas feministas de 15-3-14

Texto para reflexão sobre a atividade da roda de trocas feministas

Por Cíntia Mara, Sábado, 22 de fevereiro de 2014 às 15:59

Boa tarde, queridas!

 

Na nossa última reunião, a Cris Brites ficou de levantar com a Diana informações sobre uma atividade chamada “roda da vida”.

 

Por acaso, estava aqui lendo umas coisas e encontrei um texto da Sílvia Carmuça (Nós mulheres e nossa experiência comum), do SOS Corpo, de Recife, sobre biografias de mulheres e construção da linha da vida.

 

Estou colando abaixo alguns trechos desse texto, cujas reflexões acredito que possam nos ajudar na realização da atividade.

 

Não é muita coisa; rapidinho dá pra ler.

 

Beijos!

 

 

Cíntia Mara

 

“O feminismo, como sujeito político, se faz somente através das mulheres e de sua movimentação. É imprescindível termos um NÓS MULHERES, a partir do qual é possível analisar o contexto, identificar as contradições, fixar objetivos para esta movimentação. Sem este “nós mulheres” não há como o feminismo seguir sendo um sujeito político com força transformadora. Na formação feminista há, portanto, que valorizar a reflexão sobre a identidade e experiência das mulheres. Na teoria feminista, precisamos da categoria política “mulheres”. Na luta feminista deveremos sempre reafirmar nossa identidade política de mulheres “conscientes da sua força de oprimidas”.

            A biografia tem sido fundamental para romper com o pensamento conservador sobre as mulheres, mesmo em sua versão essencialista–generosa, aquela que trata as mulheres como poço de virtudes humanitárias. Para Aspásia Camargo, as biografias, e história de vida, possibilitariam superar a dicotomia entre determinismo e livre arbítrio e, portanto, a meu entender, enfrentar  a dicotomia clássica nas ciências sociais entre indivíduo e sociedade. Nas palavras da própria Aspásia Camargo a biografia “cria um tipo especial de documento, no qual a experiência pessoal entrelaça-se à ação histórica, diluindo antagonismos entre subjetividade e objetividade” (Apud Goldenberg, 2001. p.37).

            No feminismo, a biografia tem sido utilizada nos grupos de autoconsciência na forma de LINHA DA VIDA. Trago aqui um pouco desta experiência, porque sua análise, ainda por ser realizada, talvez nos dê pistas sobre a dinâmica de articulação entre subjetividade e historicidade nas práticas de formação, entre unidade e diversidade na formação feminista.

            A linha da vida é um exercício de produção coletiva de conhecimento sobre a situação das mulheres, realizado com variações no método. No primeiro momento, cada participante recorda os momentos marcantes de suas vidas – elege três mais marcantes e escreve sobre eles. No segundo momento, cada participante conta sua história de vida, enquanto as demais escutam e uma facilitadora registra; em grande papel no chão; para que todas possam ir acompanhando os registros. Uma após outra, as histórias vão se sucedendo, e as semelhanças emergindo. Para cada história busca-se, coletivamente, pelos personagens e as situações ou problemáticas vividas, sublinhar elementos da opressão, e da exploração também. A etapa final, a de análise, se faz por comentários de todas sobre os registros, identificando similaridades, levantando interrogações – ou seriam hipóteses? – estabelencendo relações com a experiência e o que nos diz o pensamento crítico feminista.

            A produção coletiva da reflexão se faz na articulação entre a biografia individual de cada participante e seu contexto social e histórico. Ali as pesquisadoras-educandas se percebem mulher, e compreendem o ser mulher como uma experiência, socialmente, compartilhada e, historicamente, situada, ainda que seja uma experiência singular para cada uma. Este conhecimento se faz identificando e analisando, coletivamente, as experiências e os significados das práticas sociais que contextualizam esta experiência: formas sociais do lidar com a menstruação e a puberdade nas meninas, a atenção com a virgindade, a solidão vivida no casamento, a exploração do trabalho das mulheres na movimentada vida doméstica, os desafios na busca da autonomia econômica, as injustiças no mundo do trabalho, a dupla jornada.

 

“Eu era médico, me formei como médico e segui sendo médico até hoje. Agora sei que sou uma médica” (Depoimento de participante de grupo de reflexão feminista. Recife. Arquivo pessoal, notas de oficinas. 1987).

 

            Dos grupos feministas de autoconsciência, a linha da vida transbordou para as práticas da educação popular feminista. Distintas organizações do movimento de mulheres fizeram muitas linhas da vida em seu processo de formação. Em pequenos grupos e oficinas, no campo e nas cidades. Em grandes grupos, nos encontros nacionais feministas. Muitas linhas da vida. Penso entretanto, que esta reflexão deva estar orientada para a busca de compreender aquilo, que estando fora de nós  e de nossa experiência, explica esta identidade e experiência (Scott, 1999).”

 

(…)

 

            “Na práxis educacional feminista, analisar coletivamente a situação das mulheres  faz-se pela troca de experiências e saberes em confronto com o “pensamento pensado” (Collin, 1994)  por outras mulheres, sistematizado na forma de teoria feminista.  Um processo, portanto, que nada tem a ver com doutrinação ou teoria feminista universal. Mas, tampouco, é um processo espontâneo. A formação feminista exige marcos de referência para o pensar coletivo.

            Qual seriam então os marcos que, adequadamente, podem balizar o intercâmbio pedagógico entre o “pensamento pensante” e o “pensamento pensado”? Tenho, para mim, um marco de análise do que é hoje mais relevante para promover a reflexão entre as mulheres brasileiras e latino-americanas na formação feminista. Este marco apóia-se em inúmeras contribuições da teoria feminista, que eu não poderia aqui elencar. Entretanto, é possível apresentá-lo, ainda que de maneira um tanto tosca.

            Um primeiro conteúdo é a idéia de que nós, mulheres, somos subjetivamente oprimidas e objetivamente exploradas. Esta idéia, clássica no feminismo, permite-nos explorar a percepção desta dupla dimensão da nossa experiência, permite-nos refletir sobre os elementos simbólicos e os elementos materiais da dominação dos homens sobre as mulheres.

            Um segundo conteúdo é a idéia de que esta opressão e exploração são feitas nas relações sociais, e não fora delas. Por isso a dominação não se faz do mesmo jeito sobre todas as mulheres, varia por classe e, nas sociedades racistas, varia por identidade étnico-racial. A dominação sobre as mulheres também varia em decorrência do contexto histórico.  Pensando assim, podemos alcançar a complexidade de formas que a dominação toma nas distintas relações sociais, considerar o contexto e determinações decorrentes das relações econômicas e políticas e da cultura política de cada sociedade, comunidade, territórios em que as mulheres situam-se.

            Parece-me igualmente importante trabalhar com a idéia de que há mecanismos que sustentam o sistema de dominação, através dos quais a dominação se reinventa, reproduz e perdura. Proponho considerarmos  quatro mecanismos principais: 1. A prática da violência contra as mulheres para subjugá-las, 2. O controle sobre o corpo, a sexualidade e a vida reprodutiva das mulheres, 3. A manutenção das mulheres em situação de dependência econômica e 4. A manutenção, no âmbito do sistema político e práticas sociais, de interdições à participação política das mulheres.

            A prática da violência é um dos mais antigos e usuais instrumentos da dominação patriarcal sobre as mulheres. A violência é uma ameaça presente no cotidiano de milhares de mulheres que ousam desertar do padrão de comportamento feminino delas esperado. Por isto, é uma prática recorrente e continuada tanto nos espaços da intimidade, violência doméstica  e sexual, como nos espaços públicos.

            De igual maneira, é instrumento de dominação o controle sobre o corpo das mulheres. Este controle é expresso na negação de sua liberdade sexual, na limitação a sua autodeterminação reprodutiva, na criminalização da prática do aborto (causa de milhares de mortes de mulheres, todos os anos), na expropriação mercantil do corpo e imagem das mulheres pela indústria da propaganda, da beleza, da moda e do sexo.

      Quanto aos mecanismos de manutenção da dependência econômica das mulheres, a ordem social no mundo do trabalho é a questão. O sexismo no mercado de trabalho e a imposição do trabalho doméstico, como tarefa exclusiva ou própria das mulheres, são os dois mecanismos principais. Esta ordem social, no mundo do trabalho, coloca sobre as mulheres a responsabilização exclusiva pelo trabalho doméstico, acarratendo a dupla jornada de trabalho, para umas, e levando ao confinamento no ambiente do grupo doméstico, outras tantas.

            A naturalização desta divisão do trabalho, que é social, explica a ausência de políticas públicas de estímulo à inserção das mulheres no mercado de trabalho formal, explica a desproteção social sobre o trabalho das mulheres, oferece as condições facilitadoras para a maior exploração da força de trabalho das mulheres, sendo funcional a esta exploração. Como consequência temos maior tempo de jornada total de trabalho para as mulheres, jornadas de trabalho vivenciada em mais precárias condições, com menores rendimentos que os homens e em situação de desproteção social, sem direitos trabalhistas. No Brasil, 70% da população trabalhadora informal são mulheres.

            Por fim, temos o problema da não participação das mulheres nos espaços de poder. As interdições à participação política das mulheres e sua auto-organização não foram superadas no seu todo, como demonstram vários indicadores: a sub-representação das mulheres nos espaços de poder institucional e nas direções de movimentos sociais, a fragilidade das organizações e movimentos de mulheres e a baixa inserção das mulheres nos espaços políticos de decisão sobre a mídia comercial e alternativa, são alguns exemplos. Negar às mulheres o direito à participação ou não enfrentar os bloqueios a esta participação, é manter um mecanismo de submissão das mulheres, pois consituir-se como sujeito político é condição necessária para a mudança na vida das mulheres e para a luta feminista das mulheres por transformação social.

            Pensar estes quatro mecanismos do sistema exige-nos o uso das categroias  gênero, “raça” e classe. Esta é uma exigência para o feminismo brasileiro, dada a forma como, em nossa sociedade, as relações sociais vieram estruturando-se e engendrando a desigualdade pela dominação. Sobre esta base estruturadora, articulam-se múltiplas outras desigualdades assentadas em prenconceitos e discriminação. A hegemonia da perspectiva da heterossexualidade sob a  sexualidade humana, é uma delas. A construção social sobre as diferenças de gerações e seu desvalor/valor versus a produção, é outra fonte de injustiças. Estes e outros sistemas políticos de discriminação e exclusão apóiam-se e reforçam a desigualdade já estruturada, aprofundando a opressão das mulheres.

            Na minha experiência, organizar estes conteúdos na formação feminista tem permitido articular a reflexão sobre a experiência singular de cada mulher com a experiência historicizada das mulheres em conjunto e na diversidade.  Permite concretizar reflexões sobre a forma como as desigualdades de classe e o racismo se articulam, através das relações de gênero, e como as desigualdades de gênero são construídas dentro e através da racialização da população e das diferenças de classe. Permite por fim, operacionalizar na formação, conceitos  da teoria feminista tais como,  autonomia, direitos sexuais, direitos reprodutivos, dupla jornada de trabalho, divisão sexual do trabalho, paridade na política, entre outros.

 

            Ao operacionalizar elementos teóricos na formação, esta espécie de conteúdos de base que venho adotando, tem propiciado muitas reflexões e descobertas sobre os sentidos das prioridades da luta feminista, na medida que possibilita-nos articular uma compreensão, ao mesmo tempo, unificadora e multifacetada, da dominação dos homens sobre as mulheres.”

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